Dificuldade para o escoamento da produção, a ameaça do desmatamento e a importância da cadeia da borracha nativa para as comunidades da Amazônia foram os principais temas levantados pelos produtores de borracha. Mais de 100 lideranças, entre representantes de associações de seringueiros, baseados em municípios da área de influência da rodovia participaram do 1º Encontro Grande Encontro Estadual do Extrativismo da Borracha, realizado, em março, em Manaus (AM). O evento, promovido pelo Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS) e WWF-Brasil, foi realizado para fortalecer a cadeia produtiva da região.

Um dos participantes foi Francisco Leandro, presidente da Associação dos Produtores Agroextrativistas de Canutama (Aspac). A associação, do Médio Purus, produziu aproximadamente 20 toneladas de borracha em 2022, que rendeu R$ 220 mil para 48 famílias associadas à organização. Apesar da boa produção, o impacto do desmatamento e das invasões de terra na área de influência da BR-319 preocupam.

“A gente sofre grande influência do avanço do desmatamento em virtude da chegada do asfaltamento na rodovia. Tem bastante invasão de terra, principalmente, no sul de Canutama, em direção à saída do município, na direção dos nossos seringais e castanhais”, relatou Francisco.

“A gente luta para que aconteça a pavimentação da rodovia, mas sabemos que isso deve seguir regras para proteger a floresta”, comentou Francisco. “Quando a indústria tem um pouquinho de pressa, não tem como, tem que aguardar o barco”, relatou. O escoamento até Manaus leva de cinco a seis dias. Algumas embarcações se recusam a transportar a mercadoria por causa do forte cheiro da borracha. Com a BR-319 trafegável, levaria até 24h.

Em Manicoré, a Associação de Produtores Agroextrativistas do Igarapezinho (Apaiga) enfrenta desafios na BR-319. “Saindo de casa, eu tenho que levar duas roupas. Uma para dirigir a moto e a outra para me vestir lá na cidade, para eu não andar sujo de barro”, conta o presidente da Apaiga, Raimundo do Carmo Nascimento. A Apaiga produziu 16 toneladas de borracha em 2022, gerando R$ 200 mil para 124 famílias de 17 comunidades. Essas comunidades escoam a produção pelo rio Madeira por meio canoa ou rabeta.

Por outro lado, o asfaltamento da BR-319 traz o temor de mazelas como invasões, grilagem de terra e desmatamento, que ameaçam as áreas protegidas, como lembra Francisco. “Isso [desmatamento] vem aumentando bastante, até mesmo bem próximo à área de várzea, que é onde estão os principais seringais, já vem acontecendo isso”, destacou.

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